| Breve História do Cinema Catalão
Em 1896 a comunidade catalã tomou contato com a nova invenção dos irmãos Lumière: o cinematógrafo. Como no resto da Espanha, o cinematógrafo demorou algum tempo para conseguir eco na sociedade catalã. Não obstante isso, durante estes primeiros anos e durante toda a primeira fase do cinema até a chegada da República e da Guerra Civil, o cinematógrafo destacou-se muito em Barcelona e de maneira muito rápida. Enquanto a sociedade madrilenha tardou em incorporar o cinematógrafo como um possível entretenimento, passados já alguns anos do século XX, em Barcelona o primeiro cinematógrafo surgiu, segundo consta nos arquivos, em 1897. Foi a família Belio que inaugurou o negócio na Catalunha, ainda que o cinema àquela época fosse algo inicipiente, uma espécie de espetáculo como um show ou um número de cabaré.
Em nenhum momento se pensava que o cinema pudesse chegar a ser uma verdadeira arte. Surge, então, uma pessoa que foi fundamental para a história do cinema feito na Catalunha: Fructuoso Gelabert. Seu Riña em un café não só foi um dos primeiros filmes catalães, mas o primeiro filme ficcional de toda a Espanha. Pouco a pouco a Catalunha, mais concretamente Barcelona, converte-se em uma das cidades com maior número de cinematógrafos em todo o mundo, podendo comparar-se com cidades como Nova York, por exemplo. Assim, Barcelona era, a meados dos anos dez, o coração da produção cinematográfica espanhola. Por estes anos começam a ser gestados diferentes temas cinematográficos para além dos literários, os mais comuns da época. As causas disso podem ser encontradas olhando-se a sociedade. Há que se ver que
o teatro e as zarzuelas, assim como as óperas, eram os principais
entretenimentos do povo e da elite e os incipientes cineastas da época -
visando a agradar ao público - não podiam senão oferecer-lhe aquilo que já
conheciam. Além disso, quem se arriscaria à experimentação tendo os setores
mais puristas e conservadores da Igreja nos calcanhares, pressionando-os?
De fato, por volta dos anos vinte o cinema de Barcelona recebeu o mais duro
golpe em seu crescimento com o aparecimento de certas leis de censura ao
cinema na Espanha, que surgiram por pressão da Igreja e pela instabilidade
política do momento. Nesse período, o cinema catalão perdeu muito de sua
força já que muitos cineastas foram forçados a abandonar a cidade e
redirecionar suas carreiras para Madri, Valência ou para o exterior
(principalmente França).
Em 1931, com a chegada da República, o cinema
voltou a estar em igualdade de condições com outras cidades espanholas. Em
1932 Francisco Elías, após muitos anos no exterior, chega a Barcelona com a
intenção de instalar estúdios de dublagem e som podendo, desta forma,
aplicar estas novas tecnologias às produções nacionais o que, a um só tempo,
incrementava o cinema catalão e baixando custos. Graças a esse fato
Barcelona, já em 1936, possui 114 salas de projeção capacitadas a exibir
películas sonoras. São filmes desta época Carceleras (1932) e El Café de la
Marina (1933). À essa época o cinema começou a politizar-se. A radicalização
da sociedade espanhola (e catalã) e a instabilidade econômica e social foram
as fontes onde muitos dos cineastas foram buscar inspiração para os seus
filmes. Produtoras como a SIE ou Edições Antifacistas (cujo nome fala por si
só) são exemplos da influência da política no cinema na sociedade catalã.
Outras provas disso foram as mudanças de nome de algumas salas de projeção:
o Salón Gran Via passou a chamar-se Salón Durruti, em homenagem ao famoso
militar. Obviamente o advento da Guerra não favoreceu a situação do cinema
espanhol (e catalão).
A produção cinematográfica da época - como em anos
anteriores - será marcada pela política do grupo que se encontrava no poder.
Censura estrita e queima indiscriminada de filmes são os responsáveis por
haver tão pouco material disponível, hoje, daquele período. Durante o
Franquismo, filmes como Años de la Victoria, ou os novos nomes das salas de
Barcelona (Murillo, por exemplo) foram as marcas visíveis de uma sociedade
que havia sofrido muito. A Catalunha sentiu o golpe e decaiu no que se
refere ao cinema, principalmente por culpa do exílio de muitos de seus
cineastas mais importantes.
Na Catalunha - como em todas comunidade com línguas autóctones - todos
aqueles que tivessem indícios nacionalistas eram rapidamente eliminados,
censurados e destruídos. Assim, os estúdios Orphea y Lepanto foram
arrasados pelas forças estabelecidas e todo o material arquivado foi
destruído. O objetivo do "regime" era converter o cinema num instrumento
político para ganhar a confiança e o amor do povo, assim como eliminar as
idéias nacionalistas ou esquerdistas. Os anos 60 assistem ao surgimento de
novos expoentes que não haviam vivido a guerra e esperavam ansiosos pelo fim
do "regime" para expressar-se. Na onda do espírito rebelde que acontecia por
aqueles anos no mundo todo, a Catalunha e os jovens catalães começaram a
fazer um cinema mais diversificado.
Outro importante tema relacionado à essa rebeldia reflete-se em obras como
La Piel Quemada, de Josep M. Forn (1967). O desejo por mudanças da juventude
catalã da época refletia-se, assim, no cinema.
Por outro lado, as Jornadas Internacionais de Escolas de Cinema celebradas
em Sitges em 1967 trouxeram um verdadeiro boom para as pessoas e para o
mundo do cinema, já que se tratava de um acontecimento que, depois de tantos
anos, punha em contato o cinema catalão com o do resto do mundo.
Já nos anos 70 a cultura, incluindo o cinema, converte-se numa arma poderosa
dos democratas para derrubar resquícios do autoritarismo. Começa a ser
articulada uma remodelação do cinema espanhol e, consequentemente catalão,
buscando temas e estilos proibidos ou censurados durante o Franquismo. com
filmes que vão da semana trágica de 1909 ou à Guerra Civil até filmes
eróticos ou de fortes críticas ao "regime".
Por exemplo, o cineasta antes
mencionado, Josep M. Forn, fez Companys, processo a cataluña sobre a
detenção e execução do presidente catalão pelas tropas nacionais na Guerra
Civil. Há de se ressaltar, também, que nestes anos surge para o público o
cineasta Josep Joan Bigas Luna, que hoje é um dos maiores cineastas da
Espanha e reconhecido internacionalmente. Seu filme Bilbao contribuiu
fortemente para a evolução do cinema catalão.
Os anos 80 e 90 são prósperos para o cinema feito na Catalunha.
A aprovação
do Estatuto, a Fundação de múltiplas cadeias de televisão (TV 3, Telecinco,
A3, etc.) permitiu - ao longo dessas duas décadas - que o cinema catalão
formasse profissionais de grande nível. Homens e mulheres, como Vicente
Aranda, Isabel Coixet, Bigas Luna ou Manuel Huerga, são alguns nomes entre
dezenas de outros.
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